Investigações conduzidas no Ceará revelam que lideranças do Comando Vermelho (CV) escondidas em comunidades do Rio de Janeiro ordenam extorsões contra comerciantes cearenses para financiar um padrão de vida luxuoso na capital fluminense. Segundo apurado junto a um policial militar e a uma fonte do Ministério Público do Ceará (MPCE), os criminosos pagam 'aluguéis' de R$ 80 mil a R$ 100 mil por mês com o dinheiro arrecadado das cobranças ilegais.
A escalada da violência ficou evidente com a necessidade de escolta policial para moradores comprarem garrafões de água no município de Banabuiú. As ações da facção de origem carioca no Estado ocorrem há pelo menos três anos, incluindo tentativas de monopolizar o jogo do bicho. Entre julho de 2025 e a última quinta-feira (5), 176 pessoas foram presas por ameaças e extorsões a comerciantes, conforme dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).
De acordo com uma fonte ouvida na apuração, os líderes da organização mantêm um 'estilo de vida luxuoso' no Rio de Janeiro, com mansões e participação em festas de bailes funk. 'Cobram aqui no Ceará para se manterem lá', relatou a fonte. O delegado Harley Filho, titular da Coordenadoria de Planejamento Operacional (Copol) da SSPDS, confirmou que 'esta é uma taxa para se manterem lá, ficarem na proteção do crime e mantidos dentro das comunidades'. Ele explicou ainda que, quando a polícia sobe nas comunidades e ocorrem trocas de tiros, essas ações funcionam como forma de proteção aos que pagam pelo esquema.
Os valores são obtidos por meio de extorsões unitárias. No caso de provedores de internet, os criminosos cobram R$ 10 por cada cliente cadastrado, buscando firmar 'parceria' com empresas que tenham a partir de cinco mil clientes — o que resulta em pelo menos R$ 50 mil mensais por empresa. Já na venda de garrafões de água mineral, a exigência é de R$ 1,50 por unidade comercializada. 'Para que permaneçam nas comunidades existe um custo. Essas lideranças obtêm esses valores através da exploração de territórios no Ceará', afirmou uma fonte ligada às investigações.
Neste ano, foram registradas ameaças do CV seguidas de extorsões em Fortaleza, Groaíras, Alcântaras, Banabuiú, Caucaia e São Gonçalo do Amarante. Segundo Harley Filho, as ordens para as extorsões mais recentes em Banabuiú partiram de lideranças da facção escondidas principalmente nas comunidades da Rocinha e do Alemão. Os ataques se intensificaram após a Polícia Civil do Ceará (PCCE) solicitar o bloqueio de valores milionários das contas dos faccionados. 'Já ultrapassamos R$ 4 bilhões de bens bloqueados. Nossa missão é combate ao crime e a deles buscar vias alternativas para arrecadar', declarou o delegado.
O promotor Oscar Stefano, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) Central do MPCE, informou que 'o aumento das extorsões visam capitalizar o controle e domínio territorial'. Ele acrescentou que 'temos percebido a atuação do Comando Vermelho efetivamente nessas cobranças, extorsões, ações que já, de certo modo, eram esperadas, porque o Comando Vermelho vem implementando no Ceará essa estratégia que eles já adotam no Rio de Janeiro há muitos anos'.
O modus operandi da facção permanece o mesmo: a ordem parte da cúpula e os integrantes locais realizam pichações em imóveis e disseminam mensagens nas redes sociais por meio dos chamados 'salves'. As pichações costumam 'dar 24 horas' para que empresas encerrem atividades ou moradores deixem suas casas, enquanto os salves trazem instruções detalhadas. Por meio desses avisos, a organização define quais empresas podem operar sem sanções, geralmente firmando alianças com empresários que obtêm benefícios financeiros.
Em 20 de abril deste ano, o empresário Francisco Ítalo Bezerra Lima foi preso ao desembarcar no Ceará, sob suspeita de se aliar ao CV na tentativa de controlar provedores de internet em Caucaia. A família dele era proprietária de um provedor que não sofreu ataques nem sabotagens da facção. Documentos e vídeos obtidos na apuração detalham as ações, que envolvem ameaças, incêndios e disparos.
Um vídeo mostra um homem ordenando que técnicos de internet deixem a região, afirmando que os moradores 'já sabem como funciona' e instruindo um dos trabalhadores a dizer que a instalação não foi concluída. Ele também menciona que os funcionários 'já entenderam que é pra ir embora' e cita pessoas 'teimosas' que insistem em contratar outros provedores. Em municípios como Caucaia e São Gonçalo do Amarante, a facção chegou a queimar equipamentos, deixando 3 mil clientes sem internet em janeiro deste ano.